São 11h30 de uma manhã de sábado na padaria Recando Doce. A maioria dos presentes acordou tarde e, por isto, está fazendo a primeira refeição do dia.
Como esperado às 11h30 de todos os dias da semana ela entra em suaves passos rápidos. Sua cabeça apenas se ergue para verificar se sua mesa favorida está desocupada. Certificada que sim, ela abaixa novamente seu rosto e caminha como se seguisse uma trilha que a conduzisse até um de seus ninhos seguros.
Ela senta. Seu olhar se fixa em um pequeno quadro cuja pintura é mais uma paisagem bucólica, com uma pequena casa construída no leito de um rio, onde se percebe a presença de alguém no seu interior devido a fumaça que sai da chaminé.
Ela não usa batom e nem qualquer tipo de pintura. Seu cabelo é grisalho, aparentemente nunca recebeu uma demão de tinta e está apenas preso atrás por um elástico preto desfiado. Sua roupa é simples: uma camiseta velha, larga, branca, porém limpa, sobre uma calça leg preta. Nos pés, um par de havaianas marrom. Subo novamente meus olhos e vejo em suas orelhas um pequeno par de brincos de prata: eis o seu único sinal de vaidade.
Seu semblante não é de uma pessoa triste. Há traços de felicidade. Ou seriam traços de superação?
Ela não folheia um livro ou revista.
Ela não tecla seu celular. Talvez não possua.
Apenas segura entre as mãos postas entre as pernas as chaves de sua casa.
O som das conversas paralelas abafado pela mastigação descontrolada dos famintos, o som dos talheres sendo lançados violentamente sobre os pratos, o som da serra da faca no movimento de vai e vem sobre a louça, o som do choro do bebê pedindo que sua mãe também o alimente, o som do liquidificador triturando frutas e gelo, o som do celular que não é atendido, o som da troca da travessa de ovos mexidos, o som das três televisões penduradas ligadas no mesmo canal, nenhum! Nenhum deles é capaz de disputar sua atenção com o seu próprio silêncio.
Ela não espera ser observada.
Ela não espera ser admirada.
Ela não espera que falem com ela.
Ela não espera que lhe ofereçam algo ou que a perguntem se gostaria de fazer algum pedido.
Elá só espera pela troca dos pratos do café da manhã que serão substituidos às 12h30 pelos pratos do almoço.
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Edval Domingues